Raízes coletivas

Raízes coletivas

Pensar no meio ambiente nos faz refletir sobre diversos aspectos: água, ar, animais, solo, lixo produzido pelo grande número de pessoas. Mas poucas vezes pensamos nos indivíduos – que desde sua origem – cuidam do nosso planeta: os povos indígenas.

Em um mundo em que o desenvolvimento tecnológico e o acesso à informação vêm aumentando, tendemos a pensar que temos respostas para a maior parte dos problemas que possam surgir. No entanto, quando nos deparamos com números alarmantes de desastres ambientais que ocorrem frequentemente, muitas vezes nos sentimos impotentes em relação à destruição ambiental: afinal, os avanços tecnológicos não deveriam ser usados para a proteção desses povos e do meio ambiente?

A notícia do Programa de Monitoramento de Queimadas do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) revela: aconteceram 1.469 focos de incêndio na Amazônia entre os dias 1 e 21 de junho deste ano. Além disso, segundo o Instituto, no ano de 2019, a destruição da floresta atingiu 10.000 km² de mata devastada, se tornando o recorde da década, número que tem aumentado nos últimos anos. Esses dados evidenciam que medidas para proteger os povos indígenas e o meio ambiente devem ser tomadas com urgência. Contudo, ações de caráter preventivo são escassas e a ancestralidade da sociedade, representada pelos povos indígenas, poucas vezes é ouvida, levando a problemas ambientais.

Esses números apontam para situações concretas de devastação ambiental. No dia 21 de junho de 2020 ocorreu um incêndio na Terra Indígena Jaraguá, na zona oeste de São Paulo. Além dos danos causados pelas chamas, foi relatado pelos povos indígenas que não houve assistência do Estado para conter o incêndio e que, por isso, os xondaros e xondarias (guerreiros e guerreiras do povo Guarani) tiveram que realizar esse trabalho. Esse fogo atingiu a aldeia Tekoha e queimou a vegetação nos arredores da nascente, local onde o grupo canaliza água para as moradias da aldeia, levando a falta de abastecimento.

Além disso, a destruição da floresta para substituí-la por gado, que muitas vezes ocorre através das chamadas “terras não destinadas”, é uma questão que atinge diretamente os povos indígenas. De acordo com o levantamento do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e do NAEA (Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da UFPA), essas terras compõem 23% da Floresta Amazônica, terras públicas, que são atribuídas de forma ilegal como propriedades privadas. Outro exemplo é a Terra Indígena Apyterewa, localizada no Rio Xingu, que já foi invadida por fazendeiros, grileiros, madeireiros e garimpeiros e como consequência teve mais de 50% de sua área devastada e neste ano ficaram mais ameaçadas.

Apesar desses números demonstrarem a falta de engajamento significativo sobre essas questões, existem grupos e movimentos que apoiam a luta pelo meio ambiente dos povos indígenas. É preciso que essas mobilizações e solidariedade se ampliem cada vez mais.

Sendo assim, cabe à população usufruir do acesso à informação para colaborar com as questões socioambientais que envolvem os povos indígenas. Em um vídeo da série Arandu, Nara, do povo Baré, nos ensina que:

“ (…) Essa riqueza da floresta Amazônica ela sobrevive porque nós estamos aqui dentro porque nós somos uma só, somos interligados. A floresta sozinha ela não sobrevive, porque a nossa espiritualidade ela está dentro do nosso território. Nós somos uma parte, o que vocês estão vendo, e a nossa parte espiritual: nós somos as águas, somos os animais, somos a floresta, somos o ar, somos os igarapés. Então, nós somos um único corpo. Território nosso corpo nosso espírito, porque matando os povos indígenas você também destrói o meio ambiente, você destrói a floresta Amazônica” (Nara Baré – Coordenadora-Geral da COIAB).

A criação de mecanismos de proteção de terras indígenas, tais como a demarcação de terras e o sistema de monitoramento de queimadas é fundamental e devemos pressionar para que esse direito seja garantido. Dessa forma, a solidariedade tem um papel central na preservação dos povos, da ancestralidade, do conhecimento e da natureza. Afinal, como afirma a líder indígena Sônia Guajajara: “A ancestralidade sempre ensinou que o sentido da vida é o coletivo”.

Obrigada pela atenção,

Julianna Ronzé.

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